Uma empresa decide implantar um CRM. Escolhe a ferramenta, configura as etapas e treina a equipe. Algumas semanas depois, parte dos vendedores continua trabalhando em planilhas, os registros estão incompletos e o gestor ainda precisa perguntar individualmente sobre cada negociação.
A implantação foi concluída, mas a mudança esperada não aconteceu.
Talvez a equipe não compreenda como as informações serão usadas. Talvez faltem habilidades para incorporar a ferramenta à rotina. O processo pode estar mal definido, ou a liderança pode continuar tomando decisões sem consultar os dados que pede para todos registrarem.
Essas possibilidades mostram por que uma mudança precisa ser compreendida dentro da estrutura em que acontece. Uma ferramenta participa de uma arquitetura que envolve pessoas, processos e tecnologia. Seu funcionamento depende das relações entre esses elementos.
O MHMA é um framework do Método Veross, criado por Lucas Silvestre, que organiza essa visão em quatro pilares: Mentalidade, Habilidades, Método e Ação.
Sua aplicação é ampla. Neste artigo, vamos olhar para o contexto comercial B2B, sem perder de vista a arquitetura que sustenta o trabalho.
Mentalidade: a base que orienta as decisões
Mentalidade é o jeito de ser, pensar e agir. Envolve comportamentos, crenças, valores, propósito, visão e missão. É a base a partir da qual pessoas e organizações interpretam situações, fazem escolhas e estabelecem prioridades.
Na empresa, essa mentalidade aparece nas decisões cotidianas. O que recebe atenção da liderança? Quais comportamentos são reconhecidos? Como os erros são tratados? O que acontece quando uma meta entra em conflito com um valor declarado?
As respostas revelam a distância, quando ela existe, entre o discurso e a prática.
Uma empresa pode afirmar que valoriza o relacionamento de longo prazo e, ao mesmo tempo, pressionar a equipe a fechar contratos que não conseguirá atender adequadamente. Nesse ambiente, o vendedor recebe orientações contraditórias sobre como agir. A prioridade efetiva acaba sendo definida pela cobrança que tem mais peso.
Trabalhar a mentalidade exige examinar essas escolhas e suas consequências.
No comercial B2B, isso inclui a forma como a equipe compreende o cliente, o papel da venda e a própria responsabilidade sobre o trabalho. Também envolve a disposição para aprender, rever crenças e reconhecer quando uma prática deixou de fazer sentido.
Retomando o exemplo do CRM, a resistência ao uso pode estar ligada à crença de que registrar informações serve apenas para aumentar o controle sobre o vendedor. A liderança precisa compreender essa percepção e tornar claro o propósito do registro. Precisa, sobretudo, demonstrar sua utilidade nas decisões e no apoio à equipe.
A mentalidade orienta tanto quem executa quanto quem desenha e conduz a operação.
Habilidades: as capacidades necessárias a cada função
Habilidades compreendem as competências técnicas, conhecidas como hard skills, e as competências comportamentais e socioemocionais, as soft skills.
Cada função exige uma combinação específica dessas capacidades. Elas podem ser identificadas, desenvolvidas e aprimoradas continuamente.
Um profissional responsável pela prospecção precisa pesquisar empresas, compreender o contexto de um potencial cliente e conduzir uma abordagem. Também precisa escutar, lidar com a frustração, organizar o próprio trabalho e adaptar sua comunicação.
Um gestor comercial precisa interpretar indicadores, planejar a operação e acompanhar negociações. Seu trabalho também exige dar feedback, administrar conflitos, desenvolver pessoas e tomar decisões em situações de incerteza.
Essa diferença importa porque um bom desempenho em uma função não garante preparo para outra. Um vendedor promovido à liderança pode precisar desenvolver competências que eram pouco exigidas em sua rotina anterior.
Na perspectiva do MHMA, o desenvolvimento começa pela compreensão do que a função demanda e do que a pessoa já consegue realizar. A partir daí, é possível identificar necessidades concretas.
No caso do CRM, ensinar onde clicar cobre apenas uma parte do trabalho. O profissional também precisa saber quais informações buscar em uma conversa, como avaliar uma oportunidade e como registrar o que será útil para a continuidade do atendimento.
O aprendizado ganha consistência quando inclui prática, observação e feedback. Uma dificuldade específica permite uma orientação mais útil: investigar melhor uma necessidade, conduzir uma conversa delicada ou interpretar um relatório para decidir o próximo passo.
Esse desenvolvimento acompanha as mudanças da própria empresa. Novos mercados, ferramentas e responsabilidades podem exigir outras habilidades, inclusive de profissionais experientes.
Método: a arquitetura operacional
No MHMA, Método é o processo estruturado para transformar mentalidade e habilidades em resultados. É a arquitetura operacional: o conjunto de processos, etapas, ferramentas e práticas que orientam como as coisas devem ser feitas.
Esse pilar conecta pessoas, processos e tecnologia. Define responsabilidades, organiza o trabalho e estabelece critérios para que as atividades tenham continuidade entre profissionais e áreas.
Uma operação comercial, por exemplo, precisa compreender como se aproxima de seus públicos, desenvolve relacionamentos, conduz negociações e acompanha os clientes depois da contratação. Cada uma dessas atividades exige capacidades específicas, informações e formas de execução.
No Método Veross, essa organização conta com componentes complementares: o sistema EEOGM, a jornada C.E.C.E. e a compreensão dos 10 públicos do negócio.
EEOGM: da estratégia à melhoria contínua
O EEOGM, também escrito como 2EOGM, organiza a arquitetura operacional em cinco componentes:
- Estratégia: estabelece a direção, as prioridades e os critérios que orientam as escolhas.
- Estruturação: organiza processos, responsabilidades, ferramentas e recursos necessários ao trabalho.
- Operação: coloca essa estrutura em funcionamento na rotina.
- Gestão: acompanha a execução e os resultados, oferecendo informações para decisões e ajustes.
- Melhoria Contínua: incorpora os aprendizados da prática para aprimorar a arquitetura.
Esses componentes formam um ciclo. O que se aprende na operação e na gestão pode levar à revisão de uma escolha estratégica, ao desenvolvimento de uma capacidade ou à reorganização de um processo.
Na aplicação comercial B2B, isso envolve decisões sobre quais empresas atender, como organizar a equipe, quais tecnologias utilizar e como acompanhar o relacionamento com o mercado. O sistema conecta essas decisões e permite revisá-las à medida que a empresa aprende.
C.E.C.E.: Conectar, Engajar, Converter e Encantar
O C.E.C.E. organiza a jornada de relacionamento em quatro pilares: Conectar, Engajar, Converter e Encantar.
Conectar envolve estabelecer contato e abrir espaço para uma relação. Engajar significa desenvolver essa relação, compreender o contexto e construir interesse. Converter corresponde ao avanço para uma decisão de compra e contratação. Encantar envolve a experiência e a continuidade do relacionamento após a venda.
Essa jornada abrange pré-vendas, vendas e pós-vendas, com áreas especializadas em suas funções e conectadas entre si.
Para que isso funcione, as informações precisam acompanhar o relacionamento. O que foi compreendido na pré-venda deve ajudar a conduzir a negociação. Os compromissos assumidos na venda precisam chegar a quem será responsável pela entrega. A experiência do cliente, por sua vez, oferece aprendizados para toda a operação.
O método organiza essas passagens para que o cliente encontre continuidade no atendimento.
Os 10 públicos: compreender com quem a empresa se relaciona
Outra parte dessa arquitetura é reconhecer os diferentes públicos presentes no negócio. O Método Veross identifica dez:
Desconhecido; Conectado, ativo e passivo; Cliente Ideal; Oportunidade e/ou Indicado; Quase Cliente; Não Cliente; Cliente; Cliente em Expansão, com possibilidades de upsell e cross-sell; Embaixador; e Ex-cliente.
Essa classificação não representa um funil de vendas nem pressupõe que todos percorram uma sequência obrigatória. Ela amplia a visão sobre os relacionamentos que a empresa precisa compreender e organizar.
Um desconhecido, um cliente em expansão e um ex-cliente têm relações distintas com o negócio. Reconhecer essas diferenças ajuda a definir abordagens, responsabilidades e formas de acompanhamento adequadas a cada contexto.
Como esses componentes se conectam
O EEOGM organiza a construção e a evolução da operação. O C.E.C.E. orienta a jornada de relacionamento. Os 10 públicos ajudam a compreender com quem a empresa se relaciona.
Juntos, esses componentes dão forma à arquitetura operacional dentro do pilar Método do MHMA.
A tecnologia deve refletir essa organização. Um CRM, por exemplo, precisa apoiar os processos definidos, reunir informações úteis e facilitar a continuidade do trabalho. Sua configuração exige clareza sobre responsabilidades, critérios e objetivos.
A documentação torna esse conhecimento acessível à equipe e ajuda a preparar novos profissionais. A prática permite verificar o que funciona e o que precisa ser ajustado. Assim, o método permanece conectado à realidade da empresa e evolui com ela.
Ação: a execução que concretiza a arquitetura
Mentalidade, habilidades e método só geram resultados quando colocados em prática. A ação consistente transforma conhecimento e planejamento em realização.
É na execução que a arquitetura passa a ser vivida pelas pessoas.
Um processo pode parecer claro durante sua construção e gerar dúvidas quando aplicado a um caso real. Uma habilidade praticada em treinamento pode precisar de reforço diante de uma conversa difícil. Uma ferramenta pode exigir ajustes depois de incorporada ao trabalho.
A ação permite observar essas situações e aprender com elas.
Para sustentar a execução, a empresa precisa oferecer condições compatíveis com o que espera da equipe. Isso inclui prioridades claras, responsabilidades definidas, tempo, recursos e acompanhamento.
Se a liderança estabelece uma rotina de prospecção, mas ocupa toda a agenda com reuniões e demandas urgentes, a atividade perde espaço. Se exige registros no CRM, mas mantém controles paralelos que duplicam o trabalho, cria uma dificuldade que precisa ser resolvida.
A consistência depende também dessas decisões de gestão.
O acompanhamento deve considerar o que foi realizado, a qualidade da execução e os efeitos observados. No exemplo do CRM, verificar o preenchimento dos campos é um começo. Também é necessário avaliar se as informações ajudam a retomar uma conversa, preparar uma reunião, identificar um risco ou dar continuidade ao atendimento.
A execução revela se a estrutura está cumprindo sua finalidade e oferece elementos para aperfeiçoá-la.
Por que o MHMA é cíclico
A mentalidade direciona, as habilidades capacitam, o método organiza e a ação concretiza.
Esse movimento é cíclico. A ação produz experiências que permitem voltar aos demais pilares com uma compreensão mais madura da realidade.
Ao executar uma nova rotina, a equipe pode descobrir que precisa desenvolver uma habilidade. Pode identificar uma falha no processo ou perceber que uma crença antiga já não corresponde ao comportamento dos clientes.
O aprendizado alimenta o próximo ciclo.
Imagine uma empresa que passou a investigar com mais profundidade as necessidades de seus potenciais clientes. Ao longo das conversas, os vendedores percebem que parte das empresas abordadas tem demandas que a oferta atual atende mal.
Essa descoberta pode levar à revisão do público escolhido e dos critérios de qualificação. Pode exigir novas habilidades de diagnóstico. Pode, ainda, provocar uma discussão sobre a direção do negócio e sobre quais clientes a empresa pretende atender.
A experiência de execução passa a influenciar a arquitetura.
Os quatro pilares permanecem conectados durante esse movimento. Não é necessário considerar a mentalidade “concluída” para desenvolver habilidades, nem esperar um método definitivo para começar a agir. A aplicação permite que cada pilar seja trabalhado e revisto conforme as necessidades identificadas.
Como aplicar essa visão à sua operação comercial
Um ponto de partida é escolher uma situação recorrente e examiná-la a partir dos quatro pilares.
Considere, por exemplo, a dificuldade de dar continuidade às negociações. Em vez de atribuir imediatamente o problema à falta de esforço, procure compreender:
- Mentalidade: como a equipe interpreta sua responsabilidade pela continuidade da conversa? Que crenças e prioridades influenciam essa postura?
- Habilidades: os profissionais conseguem combinar próximos passos, compreender o processo de decisão do cliente e conduzir os contatos seguintes?
- Método: há critérios, responsabilidades e ferramentas que orientem esse acompanhamento?
- Ação: o que foi combinado está sendo executado com consistência? Quais dificuldades aparecem na prática?
As respostas ajudam a definir intervenções adequadas. Pode haver uma necessidade de capacitação, um processo que precisa ser revisto ou uma decisão da liderança que está dificultando o trabalho. É possível que mais de um pilar exija atenção.
Depois de estabelecer uma mudança, acompanhe sua aplicação. Observe o que a equipe consegue realizar, quais obstáculos permanecem e o que os resultados permitem aprender. Use essas informações para ajustar a estrutura e seguir o ciclo.
Essa é a contribuição da visão arquitetônica do MHMA para o comercial B2B: compreender o trabalho pelas relações entre pessoas, processos e tecnologia, conectando a direção da empresa à capacidade de executar e evoluir.
Ao avaliar sua operação, comece por uma dificuldade que se repete. Examine os quatro pilares e identifique o que precisa ser desenvolvido, organizado ou colocado em prática. A Veross pode apoiar esse diagnóstico e a construção de uma arquitetura adequada à realidade da sua empresa.